O Grande Épico das Letras Brasileiras

Miguel Carqueija

Em “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa (1908-1967) haverá algum elemento fantástico ou fantasioso? A leitura deste grande romance, a rigor, não trai nada que objetivamente esteja fora do “mainstream”? Tudo se passa no plano natural. É verdade que o Tatarana faz, a certa altura, ou julga fazer, um pacto com o diabo. Ele próprio, porém, descrê da realidade desse pacto, onde por sinal o diabo não se manifestou durante o ritual solitário. E por fim, abalado pela morte trágica de Diadorim e a revelação do seu segredo tão ciosamente escondido, Riobaldo, o Tatarana, termina de certa forma redimido, regenerado da sua vida de jagunço, envolvido em interminável guerra pelo sertão mineiro (e também baiano e goiano); termina reconciliado com a sociedade normal, e dono de fazenda.

Mesmo, porém, prescindindo de um concreto elemento fantástico, “Grande sertão: veredas” apresenta, desde seu título emblemático e insubstituível, um aspecto épico e monumental, onde a paisagem se funde com o Homem que, desprovido de meios de transporte velozes e de comunicação audiovisual, deve encarar o imenso sertão como ilimitado e interminável. É o romance telúrico, em que o Homem, movendo-se em meio ao drama, ao romance, à comédia e à tragédia, parece apenas uma parte móvel da paisagem. Há, neste único romance de Guimarães Rosa, algo de cósmico, ainda que do microcosmo da superfície de uma região da Terra. E a metalinguagem de Rosa, no falar arrevesado do caipira que conta toda a saga em tom de conversa descompromissada, exacerba a estranheza da história, uma história de sangue e destruição, de vida incerta e perigosa, em que os homens se matam uns aos outros sem saber bem por que, e onde as mulheres permanecem em segundo plano, com exceção daquela que, travestida de homem, perpassa por toda a epopéia mantendo uma atitude permanente de discrição e mistério, dedicação e coragem.

Essa estranheza do texto de Guimarães Rosa torna-o um autor difícil embora admirável. Há mais de trinta anos tentei ler “Grande sertão: veredas” e não consegui, desalentado pela linguagem esdrúxula e a narração de enfiada, sem divisão em capítulos. Foi preciso envelhecer, amadurecer, tomar conhecimento de outros textos de Rosa — como “Sagarana” — para que, afinal, eu afrontasse o desafio de ler, do começo ao fim, o volumoso romance que, por suas características invulgares, afigura-se caso único em nossa ficção.

Agora, eu gostaria de saber como esse livro, com sua linguagem especial, conseguiu ser traduzido para o espanhol, o francês, o inglês e até para o alemão!

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