AnaCrônicas: Pequenos contos Mágicos

Miguel Carqueija

anacronicasO livro de estréia de Ana Cristina Rodrigues surpreende pela sensibilidade, numa época em que prevalece em boa parte do fandom a crueza e a vulgaridade em palavras e cenas. Contudo, há nesse livro de contos uma série de problemas.

O primeiro é o próprio título, de evidente mau gosto por se tratar apenas de trocadilho com o nome da autora. O subtítulo, “Pequenos contos mágicos”, serviria perfeitamente. O segundo problema é a ilustração de capa e contracapa, heterogênea, pouco atraente. E o terceiro — e notem bem, até aqui problemas extrínsecos ao conteúdo — é o prefácio de Octávio Aragão, que nada esclarece e que até dá a entender um caráter, digamos, “transgressor” no texto. Ora, o livro pode ser considerado conservador, derivando para um estilo poético e fabulístico, acenando para as tendências de Ray Bradbury, João Batista Melo ou Malba Tahan.

O primeiro conto, que provavelmente é o melhor de todos, curiosamente é uma fanfic de Alice. “É tarde!” representa uma alternativa bem lógica, ao que poderia ter acontecido diferente do texto de Lewis Carrol, no dia em que Alice deveria esbarrar com o Coelho Branco.

“Chiaroscuro” é uma historia de iniciação mágica, que termina abruptamente e não diz para que veio. O título italiano também é estranho.

“A princesa de toda a dor” é um conto trágico que fala em magia indígena. A narração em frases curtas decepciona como um “videoclip” com seus cortes sucessivos.

“O último soneto” fala de um poeta tuberculoso (quem sabe, inspirado em alguém da vida real?) e seu funesto desenlace. Aqui, o elemento fantástico ou fantasista é substituído pelo mórbido; todavia a história não me pareceu interessante, ou contar um drama convincente.

“A casa do escudo azul” é uma ficção científica saudosista e pós-hecatombe, uma simples vinheta sobre uma sociedade arqueológica do futuro e a façanha de recuperar um velho exemplar da “Utopia” de São Tomas Morus. No fundo, uma história muito curta para o desenvolvimento da ideia.

“Vida na estante” é um mini-conto, com os livros sendo considerados pelo ponto de vista de uma traça. Sem graça.

“Os olhos de Joana” — conto histórico passado na França de 1430, fala de um encontro entre Felipe de Borgonha e Santa Joana D’arc. Num tempo de tanto niilismo da parte dos nossos autores, surpreende favoravelmente o respeito que a autora demonstra pela pessoa de Joana D’arc, apresentada com dignidade.

“O Senhor do Tempo” é um conto alegórico e curtíssimo, de pouca importância. Por “Senhor do Tempo” ela quer dizer Deus; mas a história não leva a nada.

“Deus embaralha, o destino corta” nem é um conto. Apenas uma reflexão humorística e pretensiosa sobre Deus e o destino, fazendo referencia à famosa frase de Einstein, de que “Deus não joga dados com o mundo”. Esse é um texto descartável.

“Feitiço sem nome” é uma história de caça às bruxas, curta e pouco interessante, onde uma bruxa se livra de seus perseguidores graças a uma ajuda sobrenatural (demoníaca?), mas é tudo por demais simplista, ou seja, um texto que não diz a que veio. Esse, aliás, é o problema maior da Ana Cristina: a falta de argumento, de desenvolvimento em suas histórias, em geral muito curtas, e não é tão fácil assim escrever mini-contos com suficiente conteúdo.

“A dama de Shalott” é um dos trabalhos mais extensos da coletânea, passada no universo mítico de Camelot (incursões históricas ou mítico-históricas parecem ser uma especialidade da escritora). Conta sobre uma jovem da nobreza britânica que vive isolada num castelo e o que lhe acontece quando encontra o amor. O que falta aqui é uma narrativa mais próxima e mais emotiva. A narração distante contribui para manter o próprio leitor afastado, sem conseguir “entrar” na história.

“Como nos tornamos fogo” é uma vinheta simbólica escrita em tom patético, focalizando o mito da salamandra e uma experiência terrível de alquimia. É válido, mas os parágrafos são muito curtos, o que prejudica o interesse dos leitores, tornando fugazes as idéias expressas.

“Pelo espaço de um momento” especula com a idéia de encontros atemporais realizados por vias misteriosas, sem máquina do tempo ou qualquer tecnologia — como já fizera Érico Veríssimo no conto “Sonata”. Esse é um conto que fala em amor romântico e revela sensibilidade na autora.

“Borboleta” é um conto mainstream e parece com essas canções que falam em pós-romance, em uniões que chegam ao fim, e é interessante o simbolismo da borboleta de papel, mandada embora como um aviãozinho.

“Viagem à terra das ilusões perdidas” é um conto sem sentido, em forma de diálogo, onde as falas de um dos interlocutores são substituídas por reticências. Não alcancei essa metalinguagem; com certeza é um dos contos mais fracos.

“O baile de máscara” é uma vinheta surrealista em torno de um evento fantástico e de um conviva que ignora sua própria identidade. Ele se suicida quando, ao olhar no espelho, descobre que nada existe por baixo da máscara. É o caso de perguntar: e onde é que isso nos leva? Não basta um efeito especial para dar sentido a uma narrativa.

“Lenda do deserto” é uma fábula de aspecto árabe, que fala em djins e encantamentos. Ana Cristina parece que dá mais certo quando procura o sopro da poesia, como nessa história.

“O mapa para a terra das fadas” conta ao que parece uma história real, passada entre mãe e filho — a própria autora e o menino Miguel — ou pelo menos “baseada em fatos reais”, como se diz no cinema. Tudo gira em torno da morte do coelho Nugu, que o menino deseja possa alcançar a Terra das Fadas. A delicadeza dessa história faz dela um dos melhores textos da coletanea.

“O eremita” já é uma história mais bisonha, que tenta passar uma mensagem ecológica mas de forma muito simplista, com um final frustrante — afinal, não se percebe claramente a esperança só porque uma criança plantou uma flor. O texto resumido e apressado não faz justiça ao tema.

“Apocalypse now!” é uma brincadeira muito sem graça em torno do último livro da Bíblia. Um texto perfeitamente descartável, por total falta de conteúdo.

Por fim, “O sábio de Osgaroth” é uma fábula que mistura um tom de lenda oriental com ficção científica. Mais uma vez, a narrativa distante e apressada tira o gosto da história.

……………………………………………..

Enfim, estamos diante de um livro heterogêneo, que apresenta o elevado número de 21 contos, isso embora o volume não chegue a ter sequer cem páginas, sendo algumas ocupadas total ou parcialmente com ilustrações (a cargo de Estevão Ribeiro), além de índice e prefácio; anotando ainda que, pelo formato da obra, há pouco texto por página!

Assim, um dos principais problemas da obra é o pouco fôlego revelado pela autora, que assina contos rapidíssimos e de enredo superficial, com grande prejuízo à carga de interesse. Além disso nota-se a gratuidade em várias histórias que não sustentam a si mesmas.

A meu ver, porém, a autora Ana Cristina Rodrigues, que já era bem conhecida na internet e por sua atuação na Fábrica dos Sonhos e no CLFC, revela boas qualidades em estro que precisam ser mais aprofundadas em obras posteriores. Deve a contista, no meu entender, esforçar-se em produzir trabalhos maiores e de narrativa mais próxima, que “coloque o leitor na história”; para tanto é preciso ser mais detalhista, minimalista; a tendência a produzir entrechos com referências históricas e fabulosas já é um ponto muito positivo, que a autora deve explorar para poder perfilar junto a nomes como José J. Veiga, João Batista Melo e Malba Tahan.

Reputo como melhores trabalhos da coletânea — e até, num patamar bem superior a todos os demais (como eu já disse, o livro é desigual) os três contos “É tarde!”, “Os olhos de Joana” e “O mapa para a Terra das Fadas”.

‘ANACRÕNICAS – PEQUENOS CONTOS MÁGICOS’

Ana Cristina Rodrigues.
Gráfica e Editora A1 Ltda., Niterói, 2009.
Prefácio: Octávio Aragão. Texto de contracapa: Estevão Ribeiro.
Capa: Estevão Ribeiro e detalhe da obra de Gustave Dorè.
Ilustrações internas e diagramação: Estevão Ribeiro.

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