Derradeira Esperança: Nosso Futuro e as Máquinas

13 de agosto de 2009

Edgar Indalecio Smaniotto

Resenha do conto: Derradeira Esperança de Vernor Vinge,
Publicado em: Histórias de Robô Vol. 2. Isaac Asimov…/et. Al./ (org.)
Trad. Milton Persson. Porto Alegre: L&PM, 2005. (Coleção L&PM Pocket)

Vernor Vinge é um escritor pouco traduzido em português, o que é de se lamentar, matemático e atualmente professor aposentado de Ciência da Computação da San Diego State University, como escritor de ficção científica ganhou quatro Hugo Awards, o Oscar do gênero.

Neste conto Vinge narra a missão empreendida pela espaçonave Ilse, uma inteligência artificial criada pelos humanos, para uma missão de 100 séculos. A narrativa começa com a construção de Ilse e o desenvolvimento de sua inteligência artificial. Ilse é construída com memória programada e uma biblioteca de métodos e fatos, além dos dados necessários a sua missão, mas também com a capacidade de aprender e ter recordações particulares, o que se mostrará necessário para a conclusão de sua missão.

Após cerca de um ano de treinamento, onde os criadores de Ilse pedem para que ela teste todos os instrumentos que possui, a inteligência artificial, agora com um corpo de 22.563.901 toneladas, é enviada para sua missão. O destino de Ilse é Alfa de Centauro, para tanto a nave segue até o Sol a fim de usar sua gravidade como força de empuxo.

Já neste começo de missão os humanos (que remetem ordem através do contato maser – microwave amplification by stimulated emission of radiation), cometem um erro de tempo quando ordenam que Ilse se separe dos motores que tinha usado até então. A missão só não fracassa porque Ilse, dotada de inteligência, não obedece à ordem que colocaria em risco sua missão.

O conto segue narrando o percurso de Ilse até Alfa de Centauro, dando ênfase a própria autodescoberta da I.A. como um SER pensante e autônomo. No decorrer da vigem Ilse percebe que os humanos não fazem mais contato com ela, intrigada volta seus telescópios para a Terra e verifica que o brilho de nosso Sol esta pelo menos dez vezes superior ao normal.

Ilse, após mais alguns séculos, percebe que perdeu grande parte de sua memória, tinha esquecido o objetivo da missão. Para não perder mais dados passa a recapitular periodicamente os dados ainda armazenados em seus três cérebros extras, o que impede novas perdas de informações.

Após 100 séculos Ilse chega a Alfa de Centauro, lá ela se lembra que deve procurar um planeta que contenha oxigênio e vapor de água, mas encontra dois mundos que tem dados similares. Aqui Vinge mais uma vez vai abordar questões ligadas à inteligência da maquina, que deve discernir qual atitude tomar, Ilse não tem como colher dados mais aprimorados sobre os dois planetas, e sabe que não tem motores capazes de lhe dar novo impulso caso entre em orbita do planeta errado. O dilema se segue, até que Ilse resolve pousar no mundo com mais vapor de água.

O conto se encerra com o pouso de Ilse (em um planeta similar a Terra), que então tenta se lembrar qual era afinal a missão, e passa a testar todos os seus componentes para ver se descobre seu objetivo. Ilse segue os testes até uma grande massa de gelo com um líquido dentro cuja função desconhece, a fim de descobrir a função dessa massa ela passa a aumentar um pouco a temperatura, este método (que ela sabe não danificaria o conteúdo da massa) provoca a ativação de uma memória auxiliar, que ela desconhecia (um mecanismo colocado pelos seus criadores quando houvesse alguma falha de memória).

Através desta memória ela descobre o que deve fazer, nas palavras de Vernor Vinge:

Agora sabia o que precisava fazer. Aqueceu um tanque cilíndrico cheio de fluido amniótico a 37 graus centígrados. Do depósito vizinho, injetou um único microorganismo no tanque. Em poucos minutos começaria a se encher de sangue. Já começava a amanhecer e a escuridão estava úmida e fria. Use procurou sondar mais a nova memória, mas foi impedida. Pelo visto as instruções eram dadas de acordo com um plano que evitava o uso desnecessário da memória. “Use recapitulou tudo o que tinha aprendido e chegou à conclusão que ficaria sabendo mais coisas dentro de nove meses“.

Um conto maravilhoso, que recomendo a leitura, mesmo que seu final não seja mais um mistério para quem ler este texto, até porque é na narrativa de Vernor Vinge e nos detalhes apresentados que o leitor vai conseguir captar toda a mensagem deste texto.

Vinge não apenas idealiza um futuro em que as máquinas poderão aprender e tomar decisões, como prevê que nosso futuro estará intrinsecamente ligado ao das maquinas inteligentes, e isso pode ser muito bom para nos. Os textos de Vinge, assim como o grande escritor de ficção científica Isaac Asimov, nos lembram que não precisamos nutrir nenhum compresso de Frankstein ou, modernamente, de Matrix, pois homens e máquinas inteligentes poderão conviver mutuamente bem, para benefício de ambos.

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O Projeto Arqueologia da Ficção Científica tem por objetivo resenhar romances e contos de ficção científica publicados, em língua portuguesa, do advento da ficção científica ao fim do século XX.

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Edgar Indalecio Smaniotto
Filósofo, mestre e doutorando em Ciências Sociais pelo programa de
pós-graduação em Ciências Sociais da UNESP – Faculdade de Filosofia e
Ciências de Marília.
Resenhista das Revistas macroCOSMO.com
(http://www.revistamacrocosmo.com/portal/), e Scarium Magazine.
Articulista do Jornal GRAPHIQ e da
Revista Banda Desenhada Jornal (de Portugal).

Autor do livro: A FANTÁSTICA VIAGEM IMAGINÁRIA DE AUGUSTO EMÍLIO
ZALUAR: ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na
ficção científica brasileira. Rio de Janeiro: Editora Corifeu, 2007.

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2 Responses to Derradeira Esperança: Nosso Futuro e as Máquinas

  1. Steerieillili on 2 de março de 2011 at 8:56

    Even I had no opportunity to conduct very many concerts after World War II.

  2. Pedro Cardoso on 13 de agosto de 2009 at 16:21

    Edgar, muito boa a lembrança, muito boa mesmo!

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