A INVASÃO: romance de um Brasil Potência

13 de agosto de 2009

Edgar Indalecio Smaniotto

José Antônio Severo é um escritor dotado de sutil arte narrativa. Jornalista, trabalhou nas revistas Realidade e Veja, nos anos 60. Editor-executivo da revista Exame nos anos 70, editor chefe de telejornais na Rede Globo de Televisão e diretor geral de Jornalismo da Rede Bandeirantes de Televisão. Em jornais, trabalhou, entre outros, na Zero Hora, na Folha da Manhã e no Correio do Povo de Porto Alegre, no jornal O Globo do Rio de Janeiro e na Gazeta Mercantil. Aualmente é diretor de Rádio e Televisão. Publicou os romances: A Invasão (L&PM, 1979), A Guerra dos Cachorros (L&PM, 1983) Os Senhores da Guerra (L&PM, 2ooo).

A Invasão (L&PM, 1979), tem como foco uma intervenção militar brasileira em Angola, com o objetivo de combater os soldados cubanos que intervieram na guerra civil daquele país. Esta intervenção é realizada a pedido do presidente. Mas além de cubanas existem tropas da Alemanha Oriental (estamos em 1986) e da União das Republicas Socialistas Soviéticas (URSS) em território angolano.

Acompanhamos, através da narrativa de Severo, os bastidores políticos que levam o governo brasileiro a decidir-se por uma intervenção militar na Angola. Uma vez que tenha se dedicado ao jornalismo político por algum tempo, o autor é bem convincente nas suas descrições do aparato político-legal construído por militares, políticos e embaixadores do Brasil e de Angola a fim de dar suporte legal a uma ação militar de tal porte.

A fim de disfarçar a ajuda militar aos angolanos (não pode ser dito que seja uma invasão, já que tudo é feito a pedido do governo de Angola), o governo Brasileiro comunica a todas as nações do mundo que vai realizar um grande exercício militar simulando uma invasão a Angola. O governo da Alemanha ocidental colabora com empréstimo ao governo brasileiro para financiar a operação, e a Inglaterra empresta as suas ilhas atlânticas (Santa Helena e Ascensão), enquanto os americanos até aprovam sem ressalva o exercício militar de tal porte. Afinal se os brasileiros tiverem sucesso em um exercício desta magnitude, podem ser úteis em uma futura guerra contra comunistas instalados em países africanos.

Assim em 24 de junho de 1986 todas as nações do mundo são pegas de surpresa quando o exercício militar se transforma em uma operação de verdade.

(Porta-aviões São Paulo)

Tal invasão leva a um confronto de tropas brasileiras (apoiadas pelo governo de Angola), contra tropas cubanas, alemãs orientais, tchecoslovaquias e soviéticas apoiadas por facções rebeldes angolanas.
Severo passa então a narrar toda a operação militar e os confrontos em que as forças militaresbrasileiras enfrentam durante a ocupação. O capítulo dezessete, em que são narrados os combates entre tropas brasileiras e alemãs orientais é um dos mais empolgantes para quem gosta de histórias de guerra, aqui Severo narra o heroísmo que leva uma tropa inferiormente armada a combater até o último homem em nome de seu país (no caso o Brasil).

Ao mesmo tempo em que a guerra prossegue em território angolano as nações do mundo começam a se mobilizar, a URSS promete entrar no conflito caso seus seis mil soldados sejam atacados por brasileiros, assim um conflito local vai tendo proporções mundiais, com o apoio dos americanos as ações brasileiras. Aproveitando-se que o Brasil enviou suas principais tropas de elites e grande parte de seu material bélico para Angola, os argentinos formam uma pequena coalizão com outras nações Sul Americanas e atacam a fronteira sul do Brasil, ao mesmo tempo em que Bolivianos atacam pelo norte.

Apesar de bem escrito, e em sua maior parte bastante coerente, este romance se torna meio surreal em seu final, quando o autor, creio eu, tentando fazer piada com a eterna mudança de regimes que o Brasil sofreu ao longo de sua história, acaba por narrar um conchave político que reinstala a monarquia no Brasil. Uma idéia bastante irreal, que faz o romance perder fôlego justo em seus últimos capítulos, poderia ter um final melhor.

(Porta-aviões Minas Gerais)
Neste futuro alternativo (o romance foi publicado em 1979, portanto 1986, quando transcorre a história ainda era um futuro possível) o Brasil é dona de uma poderosa estrutura militar, que até este momento (2009) ainda não foi alcançada.
A marinha brasileira possui 190 vasos de guerra, incluindo vinte submarinos e três porta-aviões capazes de operar com caças, o Minas Gerais, o São Paulo (hoje realmente temos um porta aviões com aviação embarcada de mesmo nome), e o Rio de Janeiro. A força aérea opera com bombardeios B-52 (280 ao todo) e 200 Búfalos, além de diversos esquadrões de caças. Já o Exército opera com mil e tantos tanques.
Além de todo este aparado bélico, os brasileiros também tem a sua disposição pelo menos quatro bombas atômicas e foguetes Sondas (série que deu origem ao Veiculo Lançador de Satélites – VLS) para transportá-las.
Apesar dos números bastante irreais, tal poderio militar, que até hoje parece longe da realidade, é consistente com a euforia gerada pelo milagre econômico, a constituição da indústria bélica brasileira e o possível papel de relevo que o Brasil poderia ter como aliado dos EUA nos anos de 1970, quando foi escrito o romance. Eram possibilidades não tão ilusórias para a época em que o autor escrevia, mas tal cenário não se confirmou na história recente de nosso país.
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O Projeto Arqueologia da Ficção Científica tem por objetivo resenhar romances e contos de ficção científica publicados, em língua portuguesa, do advento da ficção científica ao fim do século XX.

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Edgar Indalecio Smaniotto
Filósofo, mestre e doutorando em Ciências Sociais pelo programa de pós-graduação em Ciências Sociais da UNESP – Faculdade de Filosofia e  Ciências de Marília.
Resenhista das Revistas macroCOSMO.com
(http://www.revistamacrocosmo.com/portal/), e Scarium Magazine.
Articulista do Jornal GRAPHIQ e da
Revista Banda Desenhada Jornal (de Portugal).

Autor do livro: A FANTÁSTICA VIAGEM IMAGINÁRIA DE AUGUSTO EMÍLIO
ZALUAR: ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na
ficção científica brasileira. Rio de Janeiro: Editora Corifeu, 2007.

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2 Responses to A INVASÃO: romance de um Brasil Potência

  1. Amadeu Paes on 17 de janeiro de 2011 at 16:48

    Consegui baixar e li o livro.

    Na minha humilde opinião, o livro começa muito bem, discordo um pouco da resenha em questão da monarquia, pois nos 80 se falava muito sobre a monarquia, houve até um plebiscito em 1993, que consultava qual regime era o ideal para o Brasil: republicano, parmentarista ou monarquia. E a monarquia obteve 10% dos votos válidos.

    O que eu acho que deixa a desejar é que a história não se fecha, como a invasão argentina/boliviana e a própria invasão ficam em aberto, realmente decepciona por isso.

  2. Martin Juan Sarracena on 31 de maio de 2010 at 2:55

    Excelente resenha.
    Não li o livro porque não o encontrei nas livrarias aqui do sul. Tentei baixá-lo nun site mas o arquivo desce corrompido.
    De todas maneiras, pela brilhante resenha do Professor Doutor Edgar Indalecio Smaniotto, tenho uma ampla visão da obra, já que me interesso por histórias de futuros possíveis.
    Parabéns!
    @Sarracena.

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