Passageiros para Vênus: relativismo filosófico, política e pós-humanismo.
Edgar Indalecio Smaniotto
Resenha do romance: Passageiros para Vênus (The World Jones Made) de Philip K. Dick. Trad. Laís Mourão e Fernando Tavares. Rio de Janeiro: Editora Bruguera, 1956.

Estamos em 1995, o planeta Terra sofre os efeitos da recente terceira guerra mundial, entre estes efeitos estão as mutações provocados pela radiação atômica. Mas estamos falando de Philip K. Dick, o escritor filósofo, portanto a principal alteração por que passa a humanidade não é apenas material (ou genética), mas filosófica.
Neste novo mundo, a fim de evitar uma nova guerra, a humanidade adota a filosofia relativista, filosofia esta contraria a qualquer dogma. Fica assim impedida qualquer concepção filosófica, política ou religiosa que pregue ser portadora de alguma Verdade. Para tanto é criada uma policia secreta (mais nem tanto), com o objetivo de inibir o aparecimento de qualquer concepção de mundo que venha a apregoar que é portadora de alguma Verdade, com V maiúsculo.
O interessante é que, na medida que é imposto como única filosofia para a humanidade, o relativismo passa a ser uma verdade com V maiúsculo, e portanto acaba por ocupar o papel da religião, da ideologia política e de filosofias que pregam a Verdade como sua apenas. Além disso, esta é uma concepção filosófica imposta de cima para baixo, o povo não a vê como sua, e a segue em publico somente por medo de represálias, o que gera uma enorme expectativa na espera de uma nova filosofia de vida.
Tudo começa a mudar quando uma misteriosos objetos amorfos, mas biológicos, começam a cair na Terra, o espanto geral que tal fenômeno gera na população, somada a incapacidade do governo em responder a altura, gera um terreno fértil para o surgimento de uma nova filosofia de vida. Esta, é lógico, precisa de um guru, representado na pessoa de JONES.
Jones é um mutante que pode prever o futuro, tornando-se alvo da policia, desde que teve uma entrevista com o policial Cussick, que por acaso é o personagem principal do romance. Cussick dedica-se a tentar impedir a escalada de poder de Jones e seus seguidores, mas acaba descobrindo que até sua mulher foi convertida. Jones consegue tornar-se presidente propondo uma reação violenta contra os alienígenas, reação esta que acaba por não ter os resultados esperados.
Prevendo já seu fracasso, Jones arquiteta para que Cussick o mate momentos antes de ser anunciado a derrocada da expedição contra os alienígenas, assim ele passa para a história não como um líder político militar fracassado, mas como um mártir de uma nova religião. Cussick por sua vez se vê encurralado, perseguido pelo governo e pelos seguidores de Jones, que na verdade agora são os mesmos. Mas ele tem uma saída!
Cussick havia tomado contato com um experimento que propunha a alteração genética de um pequeno grupo de seres humanos, para possibilitar a colonização de Vênus. Estes pós-humanos conseguiram chegar a Vênus graças a ajuda de Cussick, que possibilitou sua imigração poucas horas antes de Jones ocupar o poder. Agora perseguido pelos seguidores de Jones, Cussick também se torna um passageiro para Vênus, tendo que se refugiar neste mundo, e viver o resto de sua vida em um ambiente artificial que reproduz as condições da Terra.
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O Projeto Arqueologia da Ficção Científica tem por objetivo resenhar romances e contos de ficção científica publicados, em língua portuguesa, do advento da ficção científica ao fim do século XX.
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Edgar Indalecio Smaniotto
Filósofo, mestre e doutorando em Ciências Sociais pelo programa de pós-graduação em Ciências Sociais da UNESP – Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília.
Resenhista das Revistas macroCOSMO.com
(http://www.revistamacrocosmo.com/portal/), e Scarium Magazine.
Articulista do Jornal GRAPHIQ e da
Revista Banda Desenhada Jornal (de Portugal).
Autor do livro: A FANTÁSTICA VIAGEM IMAGINÁRIA DE AUGUSTO EMÍLIO
ZALUAR: ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na
ficção científica brasileira. Rio de Janeiro: Editora Corifeu, 2007.
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