Miguel Carqueija
No início dos anos 80 começaram a surgir espontaneamente, no Brasil, movimentos organizados de ficção científica. Autores, leitores, pesquisadores, colecionadores e editores deste gênero tão aliciante foram somando seus esforços, surgindo assim clubes, fanzines, reuniões de fãs. Chamou-se a isso a “Segunda Onda” da ficção científica brasileira (FCB), porque a primeira ocupara os anos 50, 60 e 70, esvaziando-se aos poucos, e fôra capitaneada pelo editor Gumercindo Rocha Dórea, que incentivou diversos escritores do nosso “mainstream” literário a enveredarem pelos caminhos da FC. Na hoje histórica “Coleção Ficção Científica GRD” alternaram-se nomes estrangeiros e brasileiros. Dentre os últimos alguns já produziam no gênero, como Jeronymo Monteiro; outros realizaram então as suas incursões. O primeiro livro brasileiro de FC da Editora GRD foi “Eles herdarão a Terra”, coletânea assinada pela muito conhecida Dinah Silveira de Queiroz. Saiu em seguida (1960) uma bela coletânea do crítico Fausto Cunha: “As noites marcianas”. Esses e outros livros então lançados hoje são raridades e mereciam ser reeditados.
GRD é um nome lendário na FCB. Hoje, octogenário, ainda edita algum livro de vez em quando. Para nós será sempre o grande incentivador. Naquela época, secundando a GRD, outra editora, a Edart, também lançou uma coleção especializada, a “Ciencificção”, onde, entre outros títulos, saiu a coletânea “Diário da nave perdida”, de André Carneiro — hoje nosso autor decano e ainda em atividade.
É bom lembrar que a Edart pertencia à maior gráfica do Brasil, a “Revista dos Tribunais” de Nelson Palma Travassos. Álvaro Malheiros e o conhecido poeta e crítico Mario da Silva Brito dirigiram a Edart. Quando Mario foi para o Rio de Janeiro dirigir a Civilização Brasileira, André Carneiro ocupou o seu lugar durante muitos anos.
Nos anos 80 a ficção científica brasileira reergueu-se através do trabalho de editores amadores e seus fanzines: Roberto Nascimento com o “Somnium” (do CLFC, o Clube de Leitores de Ficção Científica), Cesar Silva, José Carlos Neves e Mário Mastrotti com o “Hiperespaço”, Marcello Simão Branco com o “Megalon” e Ruby Felisbino Medeiros com “Notícias do fim do nada”; os três primeiros editados em São Paulo (o Hiperespaço em Santo André, não na capital paulista), o último em Porto Alegre. Houve outros, que não atingiram a mesma importância. Só bem mais tarde surgiu “Scarium”, no Rio de Janeiro, revista semiprofissional editada por Marco Bourguignon.
Embora o Hiperespaço seja mais antigo, e tenha durado mais tempo que todos, o último fanzine de papel a resistir — pelo menos no formato tradicional em tamanho ofício — acabou sendo o “Notícias do fim do nada” (NFN) do Dr. Ruby, médico homeopata gaúcho; ele manteve a publicação até 2009, quando a encerrou, já em idade avançada. O Dr. Ruby, a propósito, merece uma menção especial por ser, ao que consta, o maior colecionador brasileiro do gênero.
Hoje, que se multiplicam as antologias e livros individuais por editoras profissionais, em que os autores nacionais de ficção científica e literatura fantástica (pois terminamos por incluir no mesmo movimento o terror, a fantasia, o mistério, a história alternativa, o realismo fantástico) somam a centenas ou milhares em atividade, corremos o risco de perder a memória recente. A maior parte do fandom parece que não tem conhecimento da obra seminal e pioneira de Roberto Nascimento, hoje afastado por razões de saúde; e de Gumercindo Rocha Dórea, e de personalidades já falecidas como José Sanz, que traduziu e editou, e ajudou na organização do famoso simpósio de 1969 (cujo presidente foi André Carneiro, autor brasileiro tão categorizado que Van Vogt comparou-o a Kafka e Camus), que trouxe ao Rio de Janeiro nomes importantes como Poul Anderson, Arthur C. Clarke, A.E. Van Vogt e Robert Heinlein; como Walter Martins e Rubens Teixeira Scavone, escritores de talento que faleceram recentemente e bastante esquecidos. Vivos e em idade avançada temos os nossos decanos: André Carneiro, Gumercindo Rocha Dórea, Ruby Medeiros e R.F. Luchetti, este último um eclético autor da ficção de gênero, do terror à FC, passando pelo policial, e que consta ser (mas os brasileiros nem sabem disso) o recordista mundial em livros publicados, em grande parte sob pseudônimo.
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Um bom apanhado. Uma boa visão crítica dos tempos recentes.
É bom que alguém ainda se lembre de que temos história. Mas faltou citar o “Boletim Antares”, de Porto Alegre, um dos nossos primeiros fanzines, anterior até mesmo ao “Hiperespaço”. Era editado por Jane Terezinha Mondelo de Souza, em nome do Clube de Ficção Científica Antares.
Ao contrário do que se imaginava, a Primeira Onda também teve seus fanzines, sendo “O CoBra” (1965) aquele que deve ser o primeiro feito no Brasil. O outro, do mesmo período, foi “Dr. Robô”, ambos editados por Nilson D. Martello e produzidos pelos membros do fã-clube Associação Brasileira de Ficção Científica, que existiu entre 1965 e 1970.