A Grande Homenagem de Roberval Barcellos

27 de março de 2010

Miguel Carqueija

Poucos livros terão sido mais discutidos e analisados que “1984”, de George Orwell (1903-1950). O autor britânico criou a mais impressionante distopia ao imaginar que, em poucos anos, surgisse o Estado Total, capaz de controlar até mesmo os pensamentos dos indivíduos. Ao mesmo tempo é um romance bem escrito, envolvente, muito bem construído e concatenado.

Esta obra exemplar ganhou, recentemente, uma continuação livre no Brasil: “O Camarada O’Brien”, de Roberval Barcellos, realiza o que parecia impossível: uma sequência para um livro que fecha tão bem.

Roberval prossegue do ponto em que Orwell parou. Wiston Smith, reeducado por O’Brien, converteu-se ao Grande Irmão, passando a amá-lo. Entretanto, como todo reeducado, não tinha futuro; era uma impessoa e, cedo ou tarde, seria “vaporizado”.

A história então mostra o que aconteceu em seguida com o Camarada O’Brien e como, eventualmente, ele se deparou com a vingança de Wiston e a inevitável evolução da luta pelo poder em Oceania. A tese de Roberval favorece a ascensão da Polícia do Pensamento, até então um instrumento do Partido Interno.

“O Camarada O’Brien” reproduz com talento o clima sombrio e sufocante de “1984”, inclusive nas cenas em que O’Brien tortura Tillotson, culminando por levá-lo à sinistra sala 101. As palavras de O’Brien definem bastante o que seria o Estado Total, do qual muitas tiranias reais se aproximaram (um pouco como o zero absoluto e a velocidade da luz, que não se consegue atingir mas apenas chegar mais perto):

“(…) temos o poder para definir a loucura e, portanto, quem está louco. O Estado controla tudo e o Partido controla o Estado, logo, cabe a nós definirmos o que é pureza, ortodoxia saudável, patriotismo sincero e servilismo necessário, ao passo que também podemos definir o oposto a tudo isso e aplicarmos a pena adequada.”

No círculo sem horizontes do mundo fechado concebido por George Orwell, o autor brasileiro Roberval Barcellos consegue encaixar um grande arremate, que é a substituição da Estátua da Liberdade pela do Grande Irmão.

Uma das melhores novelas que eu já li na ficção científica brasileira, “O Camarada O’Brien” é leitura que recomendo vivamente.

Escrevo esta crítica na esperança de que a mesma possa incentivar Roberval Barcellos a reaparecer publicando seus textos.


Coleção Fantástica, segunda série, nº. 1, setembro de 2002 – Edições Hiperespaço. Capa: Cerito. O volume pode ser encomendado através do correio cerito@click21.com.br ou do endereço postal Rua dos Vianas 500/71, São Bernardo do Campo – SP, CEP 09760-000.

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2 Responses to A Grande Homenagem de Roberval Barcellos

  1. Ewerton on 11 de outubro de 2010 at 21:51

    Nunca soube de uma continuação de 1984 e pareceu muito interessante e ousado

  2. Alvaro on 5 de abril de 2010 at 18:34

    O livro me pareceu excelente. Muito boa a crítica

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