Prof. Msc. Edgar Indalecio Smaniotto (Observatório da ficção especulativa brasileira)
DAHARI, Estus [Thiago Marés Tizzot]. O Segredo da Guerra. Curitiba: Arte e Letra, 2005. www.arteeletra.com.br

O Segredo da Guerra, nos remete a um cenário de fantasia heróica, com influências claras de RPGs e autores ingleses (Tolkien “O Senhor dos Anéis” e C. S. Lewis “As Crônicas de Nárnia”). Thiago Marés Tizzot nos apresenta o mundo de Breasal, formado por um continente e três ilhas. Seus habitantes (raças), são aquelas tradicionalmente apresentadas em obras de fantasia: Humanos, Gnomos, Anãos, Elfos, Trolls etc.; o autor não se preocupa em criar raças mais originais, usando elementos por exemplo do folclore e tradições mitológicas brasileiras. Não sou contra o uso de Elfos, Anãos ou Trolls, mas sua mescla com elementos nacionais iria garantir já uma certa originalidade e possivelmente a formação de uma literatura de fantasia tipicamente nacional.
O livro traz em anexo o tradicional mapa, no caso de Breasal, da cidade de Teraf e do campo de batalha entre anões e elfos. Os mapas são bem desenhados e de fácil leitura, assim como todas as gravuras do livro, trabalho de primeira qualidade. Segue também um Glossário, bastante útil no decorrer da leitura e um calendário de datas importantes. Além de um ensaio referente ao surgimento da língua maktar, comum no mundo de Breasal. Uma história particularmente interessante. Tizzot poderia transformar esta história em um romance, ela tem possibilidades narrativas (o surgimento do herói), que apesar de bastante utilizada, ainda pode gerar boas histórias de aventura.
O livro é escrito na primeira pessoa, com alternância de narradores, ou vozes narrativas entrecruzadas. Uma narrativa interessante pois podemos acompanhar o mesmo acontecimento sob os olhares distintos de dois ou três personagens. Thiago Marés Tizzot não se perde na troca constante de foco de narração e mantém certa originalidade ao descrever o mesmo fato mais que uma vez no livro, na óptica de personagens diferentes.
Este é um expediente que pode ser bastante caro ao autor, pois poderia tornar a história repetitiva demais ou perder a linha narrativa. Tizzot ainda tem muito o que melhorar, apesar das diferentes vozes, estas estão por demais estanques, há pouca interação entre elas. Recomendo a leitura de Madame Bovary, de Flaubert, uma boa introdução para quem quer se aprimorar no jogo narrativo onde personagem fala com personagem, personagem fala com narrador, narrador fala com personagem e etc.; como certamente teremos uma continuação o autor poderá aprimorar ainda mais sua narrativa.
Estus Dahari, pseudônimo de Thiago Marés Tizzot, é um mago membro fundador dos Basiliscos, um grupo de aventureiros do qual fazem parte também Ligen, Krule, Kólon, Varr e Wahori. Ligen é um gnomo, um colecionador, na verdade um dos melhores ladrões de Breasal. Krule, padre de Artanos e curandeiro, que pretende converter os anões a sua religião. Kólon é um guerreiro humano que se torna general do exército anão. Varr, humano e paladino do deus Haure, um exímio guerreiro envolvido na proteção de um pergaminho que revelaria a localização dos Artefatos, objetos místicos de grande poder. Wahori é um goryc, uma soma de copista (seu povo se dedica a recolher conhecimento em toda a Breasal), e guerreiro.
Ambos se revezam na narrativa da história. Esta gira em torno da busca do mago Veilemed em obter os Artefatos, os tradicionais objetos místicos de poder. Para obter tais artefatos o mago tenta uma investida, que resulta em fracasso, contra a biblioteca central dos elfos onde esta escondido os pergaminhos com a localização destes. Após esta primeira tentativa de roubo os elfos reforçam a vigilância da biblioteca, agora guardada pela elite dos magos elficos.
Veilemed arquiteta assim um ousado plano para permitir sua entrada na biblioteca. Dar maiores detalhes acarretaria contar a história central do livro. Podemos salientar entretanto que a trama é bem construída e o segredo envolvendo a guerra entre anões e elfos consegue se manter e é bastante plausível. As descrições de batalhas e lutas em geral estão bem construídas e a personalidade de cada personagem é bem delimitada e até certo ponto, dentro dos limites do gênero, original. Em outras palavras um bom entretenimento. Boa leitura!
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