Por Edgar Indalecio Smaniotto
É com muita satisfação que acabo de ler: “The voices of a distant star”. Este mangá publicado aqui no Brasil pela Panini, em edição única, com o título assim mesmo em inglês, mas lógico que o conteúdo foi inteiramente traduzido. A história é do iniciante (segundo seu próprio pósfacio), Makoto Shinkai, com arte de Mizu Sahara. Em português a história poderia ser traduzida como “Vozes entre estrelas distantes”.
Este é um drama de ficção científica, cujo tema central é a comunicação, e como ela une os seres humanos, mesmos nas distâncias infinitas do espaço. No ano de 2039 a primeira expedição tripulada humana ao planeta Marte descobre antigas ruínas no Planalto Tharsis. Por algum motivo, um pouco nebuloso na história, os tharsians reaparecem neste momento, e tudo leva a crer que, com medo, a humanidade ataca primeiro. Daí prolongasse uma guerra entre as duas civilizações.
Mas está não é uma ficção científica militarista, por vezes, muito poucas mesmo, vemos alguns robôs armados e pilotados por humanos e naves espaciais, mas se retirássemos estas cenas, não daria umas quinze páginas das 240 do mangá. O que conta aqui não é a ação militar, mas o drama humano.
Com a guerra as forças da Organização das Nações Unidas (ONU), começa a recrutar jovens para lutar no espaço. Agora porque a ONU convocaria jovens estudantes de quinze anos ao invés de enviar militares treinados é uma boa pergunta. Mas é uma das características dos mangás.
Entre os convocados esta Nagamine, uma adolescente que mantém um amor platônico com Noboru-Kun. Após a partida de Nagamine os dois passam a trocar mensagens de celular, enquanto Nagamine estava em Marte, estas chegavam com uma diferença de poucos minutos.
Mas no decorrer da história Nagamine é enviada cada vez mais longe, Júpiter, Plutão e por fim outro sistema estelar, e então mensagens, que demoravam minutos, agora podem levar anos para serem recebidas.
O autor trabalha muito bem com temas científicos como a dilatação temporal, dodra espacial e comunicação interestelar. É interessante acompanhar como jovens já acostumados com a comunicação instantânea com a ida de seres humanos para o espaço tendem agora que lidar novamente com o distanciamento comunicativo que não conheciam. As mensagens parecem novamente vir de carteiros ou de continentes distantes via caravelas.
O drama é bem construído, e procura trabalhar com reflexões sobre a condição humana no universo. Como no pequeno trecho abaixo:
“As pessoas procuram conhecimento, mas talvez não compreendam o verdadeiro significado disso… Quando duas culturas diferentes entram em contato é praticamente impossível evitar um conflito entre elas. Alguns dizem que é da natureza humana temer o desconhecido. Mas tenho a impressão de que isso é só uma desculpa. Acho que os tharsians são capazes de enxergar mais longe do que nós. Quem atacou primeiro fomos nós.” Nagamine (p. 192)
Este mangá é publicado em um único volume, portanto pode agradar quem não tem mais paciência para comprar uma revista por anos. Boa leitura!
________________
Edgar Indalecio Smaniotto é educador, filósofo, mestre e doutorando em Ciências Sociais. Trabalhando com pesquisas em antropologia da ciência e ficção científica. Foi autor acadêmico convidado no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2010 (Devir, 2011), com o ensaio: O FUTURO EUGENIZADO: a influência da ciência e do pensamento eugênico nos escritores brasileiros de ficção científica na primeira metade do século XX.
É autor do livro A FANTÁSTICA VIAGEM IMAGINÁRIA DE AUGUSTO EMÍLIO
ZALUAR: ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na
ficção científica brasileira (Rio de Janeiro: Editora Corifeu, 2007), sobre o primeiro autor brasileiro de ficção científica. Disponível para download em: http://www.scarium.com.br/e-books/smaniotto/zaluar.pdf.
Na revista Scarium Magazine mantém a coluna Observatório da Ficção Especulativa Brasileira, e no site a coluna Arqueologia da Ficção Científica (http://www.scarium.info/category/arqueologia_da_fc/).
Publicou ensaios de ficção especulativa nas ontologias: Zumbis: Quem disse que eles estão mortos (All Print, 2010); UFO: Contos não identificados (Editora Literata, 2010) e TIME OUT – OS VIAJANTES DO TEMPO (Estronho, 2011).
Artigos Relacionados:
- Resenha: Star Trek: Raças Alienígenas Por Edgar Indalecio Smaniotto Publicado pela Editora Devir Star Trek:...
















Oi Miguel, leio mangá a muito tempo, desde Akira, atualmente acompanho Dorotea, Projeto Astral e HOMUNCULO. Além um ou outro, fora de série.
Este mangá é altamente filosófico. Mostra inclusive a parcialidade das guerras, quando a tendencia é para demonizar o inimigo sem levar em consideração os próprios erros.
Já que você se interessou por mangás, sugiro a leitura de “Ga-Rei” que a JBC está publicando, e que possui características notáveis, como fantasia mística e contemporânea, mas de mundo alternativo.