Uma Fábula sobre responsabilidade humana

25 de agosto de 2011

Resenha de “Inconstância do Amanhã”

Miguel Carqueija

Resenha de “Inconstância do Amanhã”, de F.G. Rayer.
Coleção Argonauta, nº. 7. Título original:
“Tomorrow sometimes comes” (O amanhã virá algum dia).

Este foi um dos mais envolventes e eletrizantes romances de ficção científica que eu já li. Aborda, de forma magistral, a questão da responsabilidade do homem pelos seus atos e em face das consequências.

É uma história da Guerra Fria, escrita numa época anterior aos mísseis intercontinentais. A guerra atômica, se então viesse, teria nos aviões de bombardeio os seus agentes de destruição. Rayer especula com o que poderia suceder, se a guerra fosse desencadeada por engano. O trágico herói da novela, o Major Jack Mantley Rawson, é o comandante de uma base aérea secreta e estratégica em alguma região dos Estados Unidos. Quando a base é sobrevoada por um avião desconhecido e que não responde às tentativas de contato, e uma tremenda explosão isola o local impedindo as comunicações com autoridades superiores, Rawson, prestes a ser anestesiado para uma operação de emergência e julgando cumprir o seu dever, ordena a imediata retaliação contra o inimigo (que só podia ser a União Soviética).

O mundo é varrido pela guerra atômica e Rawson, em animação suspensa no hospital abandonado, hiberna durante séculos até despertar num mundo transformado e arruinado, onde as radiações criaram uma raça de perigosos mutantes telepáticos, onde o seu nome se tornou amaldiçoado, onde um supercomputador — a poderosa Mens Magna — governa a cidade de Kaput, uma ilha de civilização em meio à barbárie generalizada.

O autor logrou criar um convincente perfil psicológico do protagonista Mantley Rawson, da angústia que o atormenta ao conhecer a própria culpa pela destruição do mundo. O longo duelo com a Mens Magna, da qual ele procura a todo custo ocultar a verdadeira identidade, a rebelião dos Evoluídos, o grande impasse final, a perturbadora idéia de que o futuro não é constante e que seria possível vivenciar dois futuros — tudo isto produz uma narrativa majestosa, dessas que marcam pelo resto da vida.

Segundo Roberto Nascimento (“Quem é quem na ficção científica — a Coleção Argonauta”) — o autor F.G. Rayer produziu toda uma série com a extraordinária personagem não-humana que é a Mens Magna.

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