A Sombra de Hayley Stark

Estamos em Los Angeles, por volta de 2005. Faz um mês que se encontra desaparecida uma bela adolescente chamada Dona Mauer.

[caption id=”attachment_44″ align=”alignleft” width=”165″]Miguel Carqueija Miguel Carqueija[/caption]

 Miguel Carqueija

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!”

(Jesus Cristo no Sermão da Montanha: Mt 5,6)

 

De pé, na borda do terraço da residência de Jeff Kohlver, a adolescente Hayley Stark observa com tristeza no olhar a imensa cidade de Los Angeles, com seus intermináveis telhados que a distância torna cinzentos, estendendo-se a perder de vista no horizonte; e se compadece por todos os mistérios e dramas que aí se ocultam, os crimes, vícios, misérias e violências enrustidos sob a metrópole monstruosa, impessoal, fria e desumana em seu silêncio. O silêncio dos inocentes.”

(Uma possível legenda para uma antológica cena do filme “Hard candy” — “O doce amargo” em tradução não-literal — produção canadense-americana de 2005, com idéia original de David Higgins, roteiro de Brian Nelson e direção do britânico David Slade, interpretações de Patrick William — ótimo como Jeff Kohlver — e Ellen Page, arrasadora como Hayley Stark)

Roman Polanski não acaba de ganhar um Oscar?”

(Hayley Stark)

A coisa mais fácil para mim seria te matar.”

(Hayley Stark)

Eu consigo fazer qualquer coisa, quando me disponho a isso.”

(Hayley Stark)

 

      Estamos em Los Angeles, por volta de 2005. Faz um mês que se encontra desaparecida uma bela adolescente chamada Dona Mauer. Enquanto isso Jeffrey Kohlver, de 32 anos, mais conhecido como Jeff, tecla no bate-papo do Messenger com Hayley Stark, de 14 anos. Jeff é um boa-pinta alto, de fala macia e aliciante, fotógrafo profissional ambientalista e de modelos. Mora sozinho num subúrbio de Los Angeles, numa casa razoavelmente aparelhada, e isolada dos vizinhos.

     Um belo dia ele e Hayley marcam encontro numa lanchonete e a química é tanta que de lá seguem, no carro de Jeff, para a residência do fotógrafo, a fim de realizar uma sessão de fotos — além das outras coisas que fatalmente viriam.

     Jeff está alegre, quase eufórico com a carga tão “apetitosa” que transporta. A menina disponível é alegre, descontraída, atirada, e parece muito disposta a cooperar. Sorridente, o fotógrafo vai antegozando os momentos de prazer que a situação promete, enquanto o veículo atravessa o bosque rumo à sua residência.

     Jeff está alegre, sim. Mas ele não imagina, não tem como adivinhar que aquela menina encantadora e de aparência frágil é o seu Nêmesis e que só está se deixando conduzir porque resolveu que nesse dia irá acabar com a carreira de um pedófilo estuprador e assassino. Jeff terá tempo de se arrepender por não ter tentado verificar o que havia na volumosa mochila da garota. Em poucos minutos a situação terá mudado como da água para o vinho. Jeff é aprisionado dentro de sua própria casa e Hayley declara enfaticamente: “A brincadeira acabou”.

     A partir daí tem início o insólito confronto de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau, ou mesmo de Davi contra Golias; e a garota investigadora sustenta uma argumentação que evidencia o seu rígido código de princípios. É uma espécie de guerra entre a verdade e a mentira na qual Jeff, com lábia e hipocrisia, procura defender a sua posição, de início negando tudo, negando ser “voyeur” e pedófilo pois, como sabemos, eles nunca fizeram nada e alegam inocência diante das câmaras de tevê, mesmo quando presos em flagrante. Para Jeff, Hayley é quem tinha dado em cima dele. A indignação da garota é soberba: “É o que todos vocês dizem!” “É tão fácil por a culpa numa criança! Não é?” “Uma menina que mal começou a menstruar não é uma mulher!” “Se uma menina sabe imitar uma mulher, isso não quer dizer que esteja preparada para fazer o que uma mulher faz!” “Quer dizer, o adulto aqui é você!”

     Resolvida a levantar toda a verdade Hayley Stark vai, aos poucos, demolindo o abusador, desmantelando a sua defesa e descobrindo as provas que o incriminam. Quando Hayley descobre o arquivo secreto do bandido, com fotografias escabrosas (“É por coisas assim que criaram as leis federais: isto é nojento.”), e ainda um retrato dele com a desaparecida Dona Mauer, Jeff se desespera. Não pode compreender que o seu mundo esteja desabando assim de repente, pelas mãos de uma adolescente justiceira, que surgiu do nada; e tenta o contra-ataque. Quando consegue se libertar das cordas, Jeff ataca a menina com armas mortíferas. Hayley Stark, porém, não é uma pessoa comum; ela foi até lá disposta a tudo e preparada para tudo, e está firmemente decidida a providenciar para que aquele dia não termine, sem que antes termine a carreira daquele pedófilo assassino. Ela não fugirá.

     E assim, num crescendo eletrizante de suspense e pontuação dramática, a ação se encaminha para o inacreditável desfecho, o antológico confronto final no terraço, quando Hayley Stark e Jeff Kohlver se enfrentarão pela última vez. E é quando Hayley Stark se mostra em toda a sua glória, ao pronunciar as majestosas palavras: “Eu sou todas as garotinhas que você olhou, tocou, machucou, violentou e matou”.

     NOTA: A ideia de anjos disfarçados como humanos, vivendo entre nós, interferindo nos acontecimentos terrestres, tem precedentes nos textos bíblicos: por exemplo, o livro de Tobias. O cinema trabalha frequentemente com este arquétipo e suas variantes, em filmes como “A felicidade não se compra”, “Mary Poppins”, “Rita no Oeste”, “E se…” e muitos outros, além dos seriados japoneses de animação “Chrono Crusade” e “Kobato”.

    (Rio de Janeiro, 3 a 7 de junho de 2012)

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